quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O POETA

Poeta, poeta, poeta !!!
Me diga baixinho; “quem sois vós?”
Anjo? Demônio? Bufão ou profeta?
Ser carente de paz como todos nós
Ou sentinela da vida, sempre a tudo alerta?

VFC

CARONA AO VENTO

Quem traz no sangue e na alma
As cicatrizes do amor
As mesmas que causam tristezas
As mesmas que causam dor
Não se entrega às mazelas
Que a vida a nós determina
Vê, nos olhos da menina
A fonte de inspiração
Atravessa o furacão,
Rompe imune a tempestade,
Caminha mesmo nas trevas,
Tropeça, cai, se levanta,
Chora, mas também canta,
Encarna o bem e a maldade
Cultiva a nobre planta da mais pura amizade.

Quem traz na alma e no sangue
Aquilo que não se cala,
A palavra que se fala,
Mesmo quando a boca sangra,
Rasga feroz a garganta,
Mesmo quando o corpo dói,
A raiva que nos corrói,
Quando a decência falha,
Quando a maldade se espalha,
Se retrai, sofre por dentro,
Espera o justo momento,
E o grito contido ecoa,
Pede carona ao vento,
Voa veloz feito seta,
E então sorrindo e cantando,
Lá vai de novo o poeta.

VFC

QUALQUER HORA DESSAS

Qualquer hora dessas
Coloco os pés na estrada
E vou de mala e cuia
Pra onde mora a paz

Pra onde brilha o sol
Onde a beleza esteja
E onde eu possa crer
Que a vida é muito mais

Qualquer hora dessas
Quem sabe eu me acalme?
Prometo ser bem leve
Bem mais que o ultra-leve

E que o amor me leve
Até que eu me eleve
Ao que você espera
Pra te acompanhar

Não quero mais perder
o tempo da nossa história
Quero cantar a vida
mas sempre em tom maior

Você é o meu tema,
enredo e minha glória
De tudo que há de bom,
você é o melhor

Qualquer hora dessas
Eu saio em disparada
Pego o primeiro trem
Navio ou avião

Destino ignorado,
Talvez Terra do Nunca
Nunca mais tristeza
Angústia ou solidão

Qualquer hora dessas
Me tranco no meu cárcere
Sozinho com você
Só nós e mais ninguém

Pra mim me basta a luz
Que nasce em seu sorriso
Que brilha nos seus olhos,
Olhinhos do meu bem.

VFC-06/07/2010

SORRISO

Sorriso que aflora falso
Entristece e trai a alma
Flui no peito qual veneno
Entorpece e não acalma

Sorriso que faz bonança
Em meio à tempestade
Tanto salva quanto mata
Confunde o mal com bondade
Castiga o corpo e a alma
É treva, não traz claridade

Sorriso que sai por pena
distante do coração
Tira a calma e o sono
Faz vagar na escuridão

Confunde paixão com loucura
Saudade com adoração
Faz chorar feito criança
Quando perde a ilusão

Sorriso, sincero sorriso !
Transporta carinho e amor
Faz da vida um paraíso
Cura a ferida e a dor
Brilha forte feito um sol
É alvorada, arrebol
Sublime e sutil como a flor.

VFC-02/05/2010

POEMA DOS ESQUECIDOS

Canto a voz dos desterrados
Canto a voz dos apartados
A voz dos deuses perdidos
A voz dos filhos da terra
Canto ruas e vielas
Canto os outros
Contra as feras
Contra daninhos e vilões

Canto os acordes perdidos
Os menestréis esquecidos
Canto quem quer que incomode
Quem quer que, com arte acorde
Do sono insano e profundo
Aqueles que trazem seu mundo
Vazio, deserto e triste
Pro nosso encantado viver

Canto Beto, Cássia e Canthídio
Chiquinho, HB, Brevilato
Marcelinho, Roberto e Renato
Gentil, Bodart, Vicente e Ivã

Anna, Barbieri, Barbosa, Araken
Paulo Ramos, Lena e Elaine
Beto Fontes, Paulinho, João de Deus
Nélio, Menezes e Lan

E que me desculpem os demais
Agora a tristeza me invade
O silêncio profundo me fere
A angústia minha mente emperrou
O disfarce da paz me apavora
Saudade galopa em meu peito
E o dia já clareou.

VFC-09/04/2006

DO AMOR E DA DOR

Um risco no céu,
Uma estrela traçante
Um sinal, um levante
Do amor contra o mal

Eu vi num jornal
A foto estampada
A tarja nos olhos
De um anjo caído

Eu vi na janela
De um apartamento
O início do fim
De quem nunca sentiu

De quem nunca sonhou
E nem mesmo sabia
Que as mãos que um dia
Em breve acalanto

Embalaram seu sono
aplacaram sua dor,
Lançariam seu corpo
Pro derradeiro abismo

Pro derradeiro vôo, sem pai e sem mãe
sem herói ou boneca, sem bola ou peteca
encerrando planos de infância e adolescência
apagando sorrisos, sonhos e encantamentos

Calou-se o seu pranto
Seu sonho menino
diante do horror,
De mentes febris.

No alto da serra
Um mundo distante
Onde se entrelaçam
Tristeza e dor

Onde um tipo de amor que castiga e consola
conforta e mata, protege e maltrata
onde o céu e o inferno se encontram, se fundem
onde a vida flutua sem som e sem cor

no asfalto demente onde gira o progresso
onde os carros circulam entre festa e agonia
os homens se matam por vício e ganância
num processo macabro, sem paixão, sem magia

mas, quem sabe um dia, ou numa noite dessas
as rodas da vida num gesto arbitrário
num sinal de protesto, circulem ao contrário
no sentido anti-horário, de encontro à paz

Um risco no céu,
Uma estrela traçante
Um sinal, um levante
Do amor contra o mal.

VFC-22/07/2010

sábado, 19 de julho de 2008

EM GUARDA CONTRA O PERIGO VERMELHO OU O GOLPE QUE CHAMARAM DE REVOLUÇÃO.

“A história assim concebida não é uma sucessão de fatos mudos, mas uma seqüência de passados oprimidos, que têm consigo um ''ndice misterioso'', que os impele para a redenção”.

ROUANET,SérgioPaulo-In, MORAES, Denis de-“A esquerda e o golpe de 64”-Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989.

Partindo das “Matrizes do Anticomunismo” legitimadas pela Igreja (catolicismo), o Nacionalismo (bandeira dos conservadores) e pelo Liberalismo, o texto de Rodrigo Patto ("EM GUARDA CONTRA O PERIGO VERMELHO") subsidia o entendimento da citação do texto de Rouanet. O que interessava aos “defensores" da família, da hierarquia, era formar uma imagem dos comunistas que os colocassem no imaginário do povo, como demônios, inimigos implacáveis da ordem e do bem social.
Fato curioso no movimento anticomunista, era que, o grupo que defendia tal movimento não se baseava em uma homogeneidade, pelo contrário, era formado, também, por membros vindos de setores que nem em todos os momentos, concordavam com o trato dado aos comunistas. Muitos dos membros do movimento possuíam opiniões próprias e as defendiam, não simplesmente concordavam com o grupo.
O movimento anticomunista, pelo acima exposto, tinha dois olhares com relação aos comunistas: O olhar fascista, de direita, e o outro do socialismo democrático, daqueles que se posicionavam mais à esquerda.
Dentro do olhar fascista, “não há lugar para conflitos. Qualquer tipo de conflito é um problema, uma degeneração que deve ser imediatamente extirpada (com a morte)”.
Segundo Rodrigo Patto, alguns momentos foram fundamentais para a investida anticomunista:
Em 1935 acontece a Intentona comunista;
Em 1937, a ditadura Varguista com a implantação do Estado Novo;
De 1946 a 1950, o PCB (Partido Comunista Brasileiro) sofre uma dura perseguição no Brasil;
E, em 1964 o Golpe Militar.
De todos esses momentos, Rodrigo Patto dá à Intentona Comunista um valor especial no combate ao comunismo.
O anticomunismo, apesar de não ter sido o fator principal, foi um “combustível” muito importante na queda de Jango (João Goulart), que, ao contrário do que se imaginava, não era comunista, ou, em nenhum momento se afirmou como tal. Era sim, preocupado com questões nacionalista e populares. Não havia em Jango a intenção de promover no Brasil uma revolução socialista. Vale lembra que no Brasil, ao contrário do ocorrido na Europa, a idéia de anticomunismo estava ligada aos setores de direita da sociedade.
Fato curioso é que as manobras do Catolicismo, do Nacionalismo e, do Liberalismo, construíram a base dos ataques anticomunistas, e isso nem sempre acontecia com uma unanimidade de idéias. As divergências aconteciam e ainda assim a perseguição se fazia de forma implacável. Os comunistas eram, segundo o “tríplice julgamento”, seres abomináveis que se equiparavam mais às feições do Diabo do que à bondosa imagem de Deus.
Vasta foi a imaginação do anticomunismo na empresa contra seus inimigos, chegando a extremos para incutir no imaginário popular os “perigos que os rodeavam":
Eram Demônios, as mãos invisíveis do diabo, cria do tinhoso, classificavam Moscou como o “império das trevas”, a “cidade de satã”.
O comunismo era uma “seita internacional” que tinha como líder Karl Marx.
Os ataques objetivavam formar no imaginário popular, imagens que ligavam os comunistas a animais terríveis como o Polvo (o polvo vermelho), as hienas (hienas vermelhas), a serpente, a hidra moscovita, o lobo, o abutre, enfim, toda a fauna temerosa estava presente na classificação dos comunistas como a degradação social.
Ainda, como se não bastante fosse a equiparação acima citada, os comunista eram também as mais temíveis doenças a darem passos largos e ameaçadores em direção do povo; eram a representação em duas pernas da peste, dos vírus, dos bacilos, dos germes, dos quistos, e de todo um dicionário médico classificador de doenças.
Eram ainda uma grande ameaça externa, uma conspiração internacional maquinada em terras habitadas por seres estranhos, alienígenas assim por dizer.
Representavam também uma terrível ameaça à moral. Os comunistas, segundo o movimento do anticomunismo, eram a própria depravação, pregavam o amor sem limites, a propagação da liberação sexual em sua plenitude. Promoviam, através de jornais, revistas, televisão e outros meios de comunicação o apelo sexual, idêntico ao que hoje invade nossas casas sem o nosso consentimento, e, engraçado, o “perigo vermelho” hoje não ronda as salas da sociedade e nem os altares das igrejas. Muito engraçado!!!!
A iconografia também foi largamente utilizada para o fortalecimento do combate ao “perigo vermelho”; O comunismo diabólico em uma charge, misturava em um grande caldeirão junto com ele próprio a anarquia e a liberal democracia; Em outra charge, a campanha de alfabetização promovida pelos comunistas doutrinava o povo a acreditar em propostas subversivas como, vejam só, reformas de base!; A imagem do comunista em outro desenho, em posição ameaçadora, aponta sua arma para o povo que foge apavorado para a direção contrária onde se localizava uma igreja, e em grandes letras a inscrição “O COMUNISMO DESTRÓI A TUA FÉ”, e, o castigo aplicado a um comunista profanador da imagem de Maria também representado em charge de grande circulação da época.
Enfim, várias foram as campanhas empreendidas em prol do combate à ameaça do comunismo utilizando a iconografia, “O comunismo despreza a tua religião, a criação do catecismo anticomunista pelo arcebispo de diamantina D. Geraldo de Proença Sigaud, o comunista como representação do ódio, da traição e do derramamento de sangue, o comunismo como destruidor da bandeira da liberdade, idéia esta propagada pelo “Órgão de Repressão à Delinqüência e Combate ao Comunismo LEI E POLÍCIA”, o comunismo como escravizador do mundo, a comparação (já citada anteriormente) do comunista com um inseto que precisa ser exterminado, o grande amigo urso.
Além das formas de combate ao comunismo já citadas, muitas outras foram aplicadas como as Organizações Anticomunistas. Entres várias dessas organizações, podemos citar algumas como: Defesa Social Brasileira e Frente Universitária de Combate ao Comunismo, a Liga de Defesa Nacional (LDN), foi criada em 1952 a CBA, Cruzada Brasileira Anticomunista, que teve como tempos áureos a década de 1950, a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP). A TFP não era engajada unicamente no anticomunismo, mas fazia parte de seu programa, tanto que nos anos de 1960 e 1970 empreendeu forte luta na campanha anticomunista.

Como análise final do texto de Rodrigo Patto, julgo ser de suma importância estar com todas as atenções voltadas para o embate travado por longo tempo entre o comunismo no Brasil e seus opositores, a importância que tal embate representou em momentos fundamentais para o direcionamento político do Brasil e para a semeadura das sementes que germinariam em forma de novas posições sociais, políticas e ideológicas de outras épocas.
Não podemos, também, deixar passar despercebidas as diversas investidas de forma manipuladora dos anticomunistas contra o imaginário popular com o objetivo de transformar cada pessoa em um sentinela atento contra um perigo criado a partir dos interesses de grupos sociais temerosos da perda de sua soberania e de seu controle exercido de acordo com suas conveniências.
Arrisco-me a acrescentar que, o temor existente nos anticomunistas, incentivou-os a, além de montar barricadas contra “seu” inimigo vermelho, também a transforma-lo em ameaça ao povo.
Permitir que as idéias comunistas se infiltrassem nas camadas populares, seria permitir que os bastidores da derrocada do moral católico, do nacionalismo dos conservadores e do liberalismo se estabelecesse com a passagem do poder para outras mãos.
Como linhas finais, peço licença a Rodrigo Patto para mais uma vez citar um trecho do livro de Denis de Moraes. Desta vez trata-se de um fragmento do manifesto do CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE (União Nacional dos Estudantes) de 1962:

“ Para nós, tudo começa pela essência do povo e entendemos que esta essência só pode ser vivenciada pelo artista quando ele se defronta a fundo com o fato nu da posse do poder pela classe dirigente e a conseqüente privação do poder em que se encontra o povo. Se não se parte daí, não se é nem revolucionário, nem popular, porque revolucionar a sociedade é passar o poder ao povo”.

É por isso, primordialmente por isso, que 1964 viveu um GOLPE e não uma REVOLUÇÃO.

Valdelir Ferreira Couto